Revista Francisca: Pelo protagonismo artístico das pessoas DEF
- Instituto IMPAR

- 11 de mai.
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Os 15 anos do instituto joinvilense que se tornou referência em acessibilidade cultural
Por Patricia Gaglioti

Em 6 de abril de 2011, no Teatro Juarez Machado, em Joinville, nascia o Instituto IMPAR. De início, uma associação cultural de projetos artísticos coletivos, idealizada por Amarildo Cassiano e Cláudia Maiole, da AMA Cia. de Dança, com as parcerias da professora de dança Maria Fortuna, da jornalista e produtora cultural Iraci Seefeldt e do ator e professor de teatro Robson Benta, então diretor da Cia. Joinvilense de Teatro. Em 2026, o IMPAR celebra 15 anos de jornada tendo se tornado referência em arte DEF e acessibilidade cultural em Santa Catarina, ajudando a transformar o modo como pessoas com deficiência ocupam os palcos e a cidade.
Entre as tantas vidas impactadas pela entidade desde aquele primeiro evento está a de Nathielle Wougles. Aos 20 anos, ela assistia ao surgimento do instituto sem imaginar que, tempo depois, assumiria sua presidência e se tornaria uma das vozes centrais na construção metodológica do Programa de Formação Cultural Arte para Todos. Na época, cursava Terapia Ocupacional, depois de abrir mão de Artes Cênicas, para unir em uma só formação duas paixões: a arte e a saúde.
“Sempre gostei da ciência, da pesquisa, do cuidado, acho que por ter passado por muitos médicos, fisioterapeutas e processos de reabilitação”, reflete. Nathielle nasceu com ectrodactilia, deficiência física que causa perdas e assimetrias ósseas. A veia artística começou a desabrochar aos 12 anos, quando engajou-se no teatro com Robson Benta. Foi ali que a menina começou a ganhar confiança e a mostrar toda a sua potência. “Meu corpo era observado por inteiro quando estava em cena. Não tinha como esconder minha deficiência, e isso era bom. Fui aprendendo a mostrá-la”, reitera a terapeuta, também atriz e performer. Protagonismo era o que Nathi exercia no palco – e o que seria, anos à frente, um dos princípios metodológicos do Arte para Todos, do qual ela faz parte desde o princípio.
Divisor de águas
Pouco depois do nascimento do Instituto IMPAR, uma experiência teatral de Robson Benta com um grupo de jovens com deficiência intelectual atendidos pelo Naipe DI/TEA, serviço especializado da Secretaria de Saúde de Joinville, inspirou o ator a criar, dentro do IMPAR, em 2012, o Arte para Todos.
Com a participação de Iraci e Maria Fortuna, o objetivo era – e continua sendo – oferecer oficinas artísticas para pessoas com deficiência em um ambiente acolhedor e acessível, partindo do princípio de que arte é direito constitucional. O programa, que seria um divisor de águas na trajetória do IMPAR, passou a orientar a forma como os artistas da associação compreendem e produzem arte, norteada por sete princípios metodológicos: autonomia, protagonismo, diversidade, relacionamentos, criatividade, visibilidade e pertencimento.
Já formada em Terapia Ocupacional, Nathielle Wougles ingressou no IMPAR em 2013, como professora e coordenadora terapêutica das oficinas de teatro, de dança e artes visuais voltadas a pessoas com deficiência, neurodivergentes e/ou com transtorno mental. Nas aulas, sempre realizadas por um professor que trabalha a linguagem artística e outro da área da saúde, ela auxilia na acessibilidade das atividades e participa dos processos criativos. “É um olhar treinado para adaptar exercícios, observar situações, falas e comportamentos, acolhendo os participantes sem deixar que a aula vire uma sessão de terapia”, explica.
Subversão da ideia de arte inclusiva
Quando o Arte para Todos nasceu, “arte inclusiva” era o termo utilizado para se referir ao trabalho desenvolvido. O entendimento mudou. Isso porque, segundo Nathielle, o uso da palavra inclusão tem um peso histórico, social e cultural associado a uma visão de fragilidade e incapacidade. “Como aponta a artista DEF paulista Estela Lapponi, o termo inclusão pressupõe uma hierarquia de capacidades, passividade, e não tem o intuito de mudar os olhares sobre os corpos com deficiência”, explica.
“A narrativa que defendemos é a do acesso. A garantia do direito de fruir o mundo e ter condições de executar aquilo que você deseja, como pessoa com deficiência. Coloca a pessoa DEF em um lugar de protagonismo”, sublinha Nathielle, que provocou nos “ímpares” essas reflexões a partir de sua pesquisa de mestrado em Artes da Cena e Mediação Cultural, pela Escola Superior de Arte Célia Helena e Fundação Itaú Cultural, onde realiza agora sua pesquisa de doutorado.
“Ainda hoje eu me emociono quando lembro da performance que o Márcio Lopes, integrante do Grupo Arte para Todos, fez em uma aula de vivência em teatro. Quando vi aquele homem adulto, com paralisia cerebral e várias questões motoras, expressando-se lindamente, pensei: quem vai dizer que isso não é arte?”, relembra Nathielle. Nesse contexto, o IMPAR se define como uma associação que trabalha com acessibilidade cultural e arte DEF – conceito que vai além de ser uma abreviação de deficiência para carregar um sentido político e artístico daquilo que os corpos com deficiência produzem.
A arte produzida pelo IMPAR extrapola definições teóricas e estéticas, colocando o fazer artístico no lugar que ocupa em essência: ser expressão humana. Todas as pessoas podem criar, expressar-se e contar suas histórias, sem padrões de certo ou errado, feio ou bonito. É assim que o IMPAR reúne no mesmo palco artistas surdos, cegos, com deficiência física e intelectual, pessoas neurodivergentes e com transtorno mental, que participam das apresentações, como também da construção das obras artísticas. Cada vez que um artista “ímpar” se expressa, no palco ou fora dele, a arte se concretiza como ferramenta de estímulo ao protagonismo, à autonomia e ao exercício de cidadania.
Além das oficinas de vivência artística (em teatro, artes visuais e dança) e dos três grupos de teatro associados – Arte para Todos, Louco é Pouco e Libração –, o instituto promove eventos como os “Diálogos Arte para Todos”, a “Mostra Arte para Todos”, e oferece serviços de consultoria, oficinas, palestras performáticas, entre outros. Sem sede física, as atividades ocorrem em espaços parceiros ou locados e se capilarizam por várias cidades catarinenses, não só Joinville, dependendo do projeto. Unidades de saúde e serviços públicos diversos podem se tornar lugares para se fazer arte para todos.
A soma das ações já impactou diretamente em torno de 21 mil pessoas, em pelo menos 60 turmas de oficinas de vivência artística e mais de 100 encontros, mostras, seminários e tardes culturais. Em 2025, parte da equipe da associação percorreu as seis mesorregiões de Santa Catarina compartilhando com estudantes, professores e pesquisadores de 12 instituições de ensino superior os saberes acumulados e uma metodologia que extrapola o campo das artes.
A crença no trabalho coletivo
O trabalho do IMPAR é essencialmente coletivo. A associação é constituída por uma rede criativa de pessoas de diferentes áreas de atuação, entre artistas, produtores culturais, profissionais da comunicação, saúde e administração, além de consultores em acessibilidade, intérpretes de Libras, entre outros. O instituto se mantém financeiramente pela aprovação de projetos em editais culturais e com a prestação de serviços culturais e doação de pessoas físicas, instituições e empresas.
Em comemoração aos 15 anos, lançou uma campanha que convida as pessoas a se engajar no que chamam de Movimento IMPAR, fazendo doações ou tornando-se apoiadores mensais. Também é possível apoiar a associação comprando produtos da linha Arte para Todos, ou patrocinando o projeto pela Lei Rouanet. O trabalho é intenso para que as cortinas sigam abertas para a arte DEF em Joinville, em Santa Catarina e Brasil afora.
• Saiba mais: www.impar.art.br



